A Filha do Tempo – Capítulo 2 – Lembranças de um passado recente

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A Filha do Tempo

Pri

Depois do rolo no intervalo, o resto das aulas foram chatas. Bem chatas. Duas aulas de matemática antes do almoço ninguém merece.

No almoço, foi mais tranquilo. O Rod sentou com a gente, e o Bruno e seus amigos nem foram almoçar. Acho que ficaram com medo do Rod, com aquele golpe de Karatê Kid (bem, no caso dele tava mais pra versão com o filho do Will Smith, mas tá valendo). Até eu ficaria com medo se o rolo fosse comigo.

A única parte chata era o lenga-lenga dele com minha irmã. Sério, o cara me tratou bem e tals… conversou comigo também, mas tava mais que na cara que ele gamou na Deb. Sorte dela, mas logo, logo eles acabariam junto, e eu ficaria sozinha novamente. Igual ao ano passado.

As aulas seguintes foram igualmente chatas. Duas aulas de biologia e uma aula de leitura, que usei sabiamente para mexer no meu celular (Marvel Future Fight é um estilo de vida, é preciso investir tempo e carinho).

A última aula do dia foi a mais chata. Pelos menos para mim.

Você pode odiar e achar física insuportável. Querer passar a mil léguas de distancia de Biologia e chamar o Hugo toda vez que ouvir falar de Sociologia. Mas nada é pior que Química. Nada, nada na escola, é pior que química.

Nosso professor ainda tem o nome de ator de um programa da TV Cultura, professor Tibúrcio (oie, ninguém sabe o que é Rá-Tim-Bum? Aff…). O cara parece um maluco, com óculos de fundo de garrafa, jaleco branco sobre a camiseta azul e cabelos compridos e enrolados que mais pareciam um ninho de mafagafos.

  • Boa tarde turma – ele disse ao entrar.

Resmungamos “boa tarde” tão desanimados que até fiquei com dó do cara. Aí lembrei que ele era professor da minha matéria desfavorita, e parei de ter dó dele.

  • Credo Pri, parece que você vai vomitar – disse a Deb quando virou para falar comigo.

Nós sentamos na fileira da parede, então dava para bater um papinho esperto como se estivéssemos prestando atenção na aula. Bem, sinto muito se magoei você benhê, mas ficar prestando atenção na aula é muuuito chato. Depois teremos que estudar tudo outra vez para as provas mesmo, então não gasto meu cérebro prestando atenção na mesma coisa duas vezes.

  • Ai Deb, eu odeio essa tabela periódica e as essas outras coisas esquisitas e chatas de química.

A Deb me olhou confusa.

  • Que outras coisas?

  • As outras coisas de química que ensinam pra gente, que nunca serão úteis na nossa vida.

  • Se você se tornar uma química, ou uma professora de química, será útil – objetou o Rod.

Ele estava sentado na primeira carteira da fileira ao lado da nossa, e por incrível que pareça, ele sempre escutava o que falávamos. Era meio bizarro, mas eu não ligava muito. Olhei séria para ele.

  • O dia em que eu me inscrever em uma faculdade de química, por favor, leve-me imediatamente para o sanatório mais próximo.

O Rod engasgou segurando a risada, então acabamos rindo também. Mas nosso momento alegre foi estragado pelo vilão da aula.

  • Então alunos – disse o professor -, que tal falarmos sobre a tabela periódica?

Eu suspirei dramaticamente e ergui as mãos aos céus (não sei se perceberam, mas gosto de fazer isso).

  • Eu não disse? Falei pra Deb.

Depois de um resmungo coletivo dos alunos, o professor exibiu um sorriso de louco e arregalou os olhos. A Deb riu.

  • Parece com sua cara de doida Pri.

  • Não parece nada, ok? Eu tenho classe – disse fingindo estar emburrada.

  • Pelo que vejo, minha matéria não é muito famosa por aqui.

  • Eu gosto muito da sua matéria professor – disse uma garota loira e nerd que parecia bem puxa saco. Apenas revirei os olhos.

  • Bem, temos um ou outro fã então. Isso é melhor do que minha estimativa inicial. Mas eu aceitei este emprego com um desafio: fazer vocês gostarem da minha aula, mesmo que não gostem da minha matéria.

Confesso que aquela declaração despertou o meu interesse. O meu e o do resto da sala. Ah, qualé! Quando que você escuta um professor de química dizer algo assim?

  • Então, tenho uma proposta para vocês – continuou o professor, que nesta altura já tinha a total atenção da sala. – Faremos um projeto: a apresentação de uma peça teatral. Todos que estiverem envolvidos, e temos papéis e funções para todos, terão nota máxima no primeiro bimestre. Que tal?

Foi uma bagunça total. Os alunos começaram a falar todos ao mesmo tempo, uns com os outros e outros com o professor, que não se importou em restaurar a “ordem habitual”. Deixou rolar, e isso foi legal.

Quando ia comentar com a Deb, vi que ela estava conversando com o Rod. Tá, não dava para negar que estava rolando um clima entre eles. E eu, como boa irmã, não ia me meter.

A verdade era que a Deb e eu nem éramos muito amigas. Estudávamos em escolas diferentes antes de entrarmos aqui no Juarez, então, não sei muito bem o que rola com ela e ela não se mete na minha vida.

Eu bem que gostaria de me aproximar mais dela, mas tinha um tipo de barreira entre nós. Não sei explicar o que é, mas essa barreira, naquele exato momento, criou em mim um sentimento ruim, sabe, meio de solidão. É engraçado porque, naquela hora, todo mundo estava conversando com todo mundo, mas não tinha ninguém para conversar comigo.

Me deu muitas saudades do Felipe. Ele era um amigo meu, da outra escola. Estudamos juntos desde o sexto ano, e sempre estávamos juntos. Mas ano passado ele mudou para o Japão, onde os pais deles se estabeleceram com um comércio, e tivemos que nos separar.

Eu até pensei que iríamos namorar, assim como sei que minha irmã vai acabar namorando o Rod. Dava pra ver na cara dela, e na dele também.

Na verdade fiquei muito feliz pela Deb. Nós não conversávamos muito, mas eu sabia que ela era meio triste com relação a esse lance de namoro, por conta de um rolo que aconteceu uns anos atrás. Eu queria mesmo é que eles dessem certo.

Dei uma olhada no pessoal da sala. Mais especificamente nos garotos da sala. Sinceramente eu não via ninguém ali que me interessasse. Bem, eu não tinha visto as outras salas, então não perdi as esperanças. Mas duvido que tenha alguém aqui no Juarez como o Felipe.

No meio da bagunça toda, acho que a Deb percebeu alguma coisa.

  • Pri – disse ela me sacudindo -, está tudo bem com você?

Tentei disfarçar e fazer minha cara de Pri feliz. Sempre dá certo.

  • Tá sim! Por quê?

  • Você parece triste, como se estivesse pensando em coisas do passado – disse o Rod, o que me assustou um pouco. Ok, admito: me assustou pacas.

  • Por acaso, senhorito, você está lendo minha mente?

  • Sim – ele disse, tão naturalmente que eu até hesitei. Hesitei até a Deb começar a rir e chamar o Rod de professor Xavier depois da praia.

Não teve como não rir, foi engraçado, mas fiquei um pouco incomodada com o que ele disse. Se eu acreditava que existiam pessoas com super poderes por ai? Claro que sim! De onde você acha que sairia tanta imaginação para filmes e series sobre super heróis? Com certeza tinha um fundo de verdade.

Acabei me envolvendo no papo deles, que não tinha nem pé nem cabeça. Qualquer coisa sobre os elementos químicos da tabela periódica serem deuses gregos. Cara, minha irmã estava mesmo apaixonada. Em casa, somos a Carol e eu que gostamos desse lance de heróis, mitologia e afins. Ela nem curtia essas paradas, mas acabava assistindo com a gente.

Foi então que a natureza chamou, e quando a natureza chama você precisa dar ouvidos. Falei com o professor e fui ao banheiro do nosso andar (o terceiro), bater um papo com o deca, como costuma dizer meu pai.

Depois de findadas minhas necessidades, lavei as mãos e sai para beber água no bebedouro que fica ao lado da porta do banheiro feminino.

Enquanto bebia água, senti a sensação novamente, a mesma que tinha sentido lá no auditório. Um formigamento estranho, seguido de uma pequena pontada na cabeça. Na mesma hora ouvi pessoas conversando.

  • E não adianta, não aceito esse tipo de aula na minha escola.

Hum… Era a diretora. Como eu sabia? Sei lá, mas eu sabia.

Não sei por que, mas entrei correndo no banheiro novamente. O banheiro ficava na esquina com o corredor do laboratório, e era de lá que ela estava vindo.

  • Mas é permitido, senhorita. O contrato de aula permite que os professores apliquem atividades diferenciadas como avaliação.

  • Ótimo! Agora terei que aguentar essa! Em vez de provas e trabalhos, os alunos farão filmes como avaliação de história. Filmes, João! É o cúmulo…

E eles se foram pelo corredor. Cara, então não era só o professor Tibúrcio que estava mudando as regras… O professor de história também! Ai, tomara que seja ele quem dê aula para a gente também!

Quando que a diretora e o tal João passaram, a sensação estranha também sumiu. Então só poderia estar ligada a um deles…

Bom, dizem que as vezes o santo de uma pessoa não bate com o santo da outra. Talvez fosse isso. Talvez fosse outra coisa. Será que eu devia falar com a Deb?

  • Você só pode estar brincando, Tibúrcio! Uma peça de teatro?

Tratei de me apressar. De tudo que tinha ouvido, tirei duas conclusões. Primeiro, os professores da escola estavam se rebelando contra o jeito tradicional de dar aulas. E segundo, a diretora estava odiando isso. Tive que correr para não perder a cara que ela estava fazendo de inconformada diante da sala toda.

E ae, curtiu? Não? Comente ai!