A Filha do Tempo – Capítulo 1 – Um novo amigo

Este é o primeiro capítulo do livro “A Filha do Tempo”, onde você conhecerá as aventuras de Deb, Rod e Pri, que tinham vidas aparentemente normais, até um deles ser atacado pela diretora da escola que frequentam e suas vidas serem viradas de ponta cabeça, com monstros, deuses e seres místicos tentando capturá-los.

A Filha do Tempo

Bem vindo ao livro A Filha do Tempo – Capítulo 1

A Filha do Tempo – Capítulo 1

Deb

Uma coisa chata, no meu ponto de vista, são as reuniões de pais e mestres onde os alunos são obrigados a participar. Sério, se a reunião é chamada de reunião de pais e mestres, por que raios nós temos que estar presentes? Não existe coisa mais frustrante do que um monte de adultos que mandam em sua vida conversando sobre assuntos que não te interessam nem um pouco.

Perdão tem sim. Uma reunião de pais e mestres com a presença obrigatória dos alunos no primeiro dia de aula. Isso sim é a coisa mais frustrante que pode acontecer com um adolescente. E era exatamente esta situação que minha irmã, eu e outros 198 alunos estávamos enfrentando.

Este era o ano de inauguração da nossa escola, o Colégio Juarez Wanderley, então, éramos os primeiros alunos estudando ali. Creio que era este o motivo da direção ter convocado os pais para uma reunião, mas isso não deixava de ser entediante. Está certo, era uma escola nova, super moderna. E o auditório tinha ar-condicionado (muito útil no verão, estação em que, aliás, estávamos). Mas não posso mentir: era chato mesmo sim.

A diretora da escola, que se apresentou como Bianca Redmore Bittencourt, estava falando sobre várias coisas chatas. E o mais constrangedor, era que meu pai concordava comigo, pois ele também estava achando a reunião um tédio. Como eu sei? A câmera que filmava o auditório deu um close nele dormindo.

Discretamente, dei uma leve pisadinha em seu pé. Infelizmente, ele acordou pulando da cadeira, o que deixou tudo ainda mais cômico. Eu não tinha onde enfiar a cara de tanta vergonha, mas minha irmã, sentada ao meu lado, não parecia se importar.

  • Relaxa mana – disse a Pri -, ele sempre dorme nessas reuniões, você sabe disso.

  • Pri – retruquei baixinho para meu pai não ouvir -, você quer ficar conhecida como a garota filha do cara que babou no primeiro dia de aula?

Ela pensou por uns segundos e depois olhou em volta, como se só naquele momento tomasse ciência de todos os pais e alunos que olhavam para nossa direção, rindo e sussurrando baixinho.

  • Pensando bem – disse ela, se mexendo desconfortável na cadeira -, acho que você está certa.

  • Eu sempre estou certa – disse para ela. Recebi um resmungo como resposta.

Essa era outra situação desconfortável. Nossa escola era financiada pela Embraer, uma empresa fabricante de aeronaves aqui da minha cidade, São José dos Campos. Então, o ensino é de qualidade de escola particular com preço free. Quando meu pai viu isso, pirou o cabeção. Na hora foi com minha irmã, que estava no último ano do ensino fundamental, fazer a inscrição dela para a prova de seleção. Quando ele chegou em casa, tinha me inscrito também, pois se informou lá e viu que alunos do 1ª ano do ensino médio podiam fazer a prova.

Não que eu esteja reclamando, mas estudar na mesma escola da sua irmã mais nova não é bem o que eu queria, principalmente porque me faz parecer repetente (hum… ta bem, eu estou reclamando, mas dá um desconto aí, please?). E o pior: caímos na mesma sala. Tenso assim.

Então, lá estava eu isolada em meus devaneios, quando senti uma coisa estranha. Era quase como um formigamento, junto com uma pontada na cabeça. Parecia que alguém estava me olhando, me sondando… Sei que parece loucura, mas foi o que pareceu na hora. O mais estranho é que, tão rápido como começou, terminou.

Olhei ao meu redor para ver se achava o motivo daquela sensação estranha, e percebi que a Pri estava incomodada também. Quase falei com ela, mas não éramos tão amigas assim, e se não fosse a mesma coisa, ela acharia que eu era doida.

Foi quando ela me deu um cutucão de leve no braço.

  • Não olha agora, mas acho que tem um garoto olhando pra você.

Logicamente, fiquei virando a cabeça que nem tonta até receber outra cutucada.

  • Falei pra você não olhar.

  • Aiiii menina, quem que não olha com uma notícia dessa?

Ela revirou os olhos.

  • Qualquer pessoa que não queira dar na cara! O menino vai perceber.

Com muita dificuldade (colocando bastante ênfase no muita) eu consegui me acalmar um pouco.

  • Tá bom, mas onde ele está?

Minha irmã consegue fazer uma cara de louca quando está conspirando. Ela arregala os olhos e dá um sorriso feliz demais para o meu gosto.

  • Ali, duas fileiras pra frente, só que do lado direito.

Como estávamos sentados na ponta esquerda da nossa fileira, ficava um pouco difícil ver o garoto. Mas não tive que procurar muito. Bem no lugar onde a Pri falou, um garoto moreno, carequinha e bem bonitinho, estava mesmo me olhando.

Quando nossos olhares se encontraram, ele sorriu. Eu desviei os olhos na hora, mas não consegui deixar de sorrir também.

  • Ele te viu? Ai meu Deus, ele te viu!

  • Fica quieta Pri!

  • O que foi que você viu? Perguntou meu pai.

Ficamos quietas, e se a diretora não pedisse uma salma de palmas para o diretor de RH da Embraer, que era o próximo palestrante, seriamos pegas sem saber o que inventar.

O que achei estranho foi o olhar da diretora. Eu podia estar errada, mas ela olhou especificamente para o garoto, a Pri e eu. No mínimo, esquisito.

Para a nossa alegria, o cara da Embraer disse que os alunos sairiam para o café da manhã, e depois as aulas começariam, e os pais seriam dispensados depois daquela palestra. A Pri e eu nos despedimos do pai e fomos para o refeitório.

Não sei se toda escola particular era daquele jeito, mas o café da manhã ali no Colégio da Embraer (que era como todos estavam chamando a escola) era muuuito chique. Podíamos escolher um salgado ou lanche, que vinha acompanhado de suco, fruta e um docinho de amendoim.

Nos sentamos um pouco afastadas da maioria dos alunos. Apesar de ser primeiro dia, muitos já se conheciam e sentavam junto. Eu mesma reconheci uns dois ou três que fiz questão de ignorar. Sou meio antissocial mesmo, gosto de ficar apenas com meus amigos, o que, na atual situação, incluía apenas a Pri (a que ponto cheguei meu Deus).

Quando sentamos e dei uma mordida na minha esfiha de carne, quase fui para o céu de tão gostosa que estava. O suco de abacaxi estava doce na medida certa.

  • Deb, não olhe agora… Não é pra olhar mesmo, mas acho que o garoto moreninho que estava te olhando no auditório está vindo se sentar com a gente.

Tenho certeza que fiquei branca, mais ainda do que o normal, pois a Pri segurou para não rir.

  • Você tá falando serio?

Eu estava de costas para a fila onde pegávamos comida, e se virasse para ver, aí sim faria um papelão pior ainda daquele que rolou no auditório.

Minha irmã olhava para além de mim, tentando parecer casual. Estava sendo ridícula, mas o que vale é a intenção.

  • Super serio. Garoto bonitinho se aproximando em quatro, três, dois…

  • Oi, tudo bem se eu me sentar com vocês?

Eu olhei para o lado e, vendo direito agora sem várias cabeças na frente, tive certeza de que a Pri estava no mínimo certa. Ele era muito bonitinho. Devia ser um pouco mais alto que eu (não que isso fizesse a diferença, já que todos são mais altos que eu), moreno, com óculos de aro preto e cinza. Usava o uniforme da escola (assim como todos nós, pobres alunos): camiseta branca com o logo do Juarez na altura do peito, calça jeans e tênis. Nada demais, mas seus olhos castanhos e seu sorriso me deixaram sem saber o que dizer.

  • Claro – disse a Pri, me salvando de cometer um suicídio social. – Puxa a cadeira ai.

Ele agradeceu e se sentou. Enquanto arrumava suas coisas para comer, fiquei pensando no que seria normal dizer para puxar papo. Felizmente e não pela última vez, a Pri estava comigo.

  • Nós vimos você no auditório.

Retiro a parte em que disse felizmente pela Pri estar comigo. Ele olhou para ela e depois para mim, sorrindo tranquilamente, como se o que ela disse fosse a coisa mais natural do mundo.

  • Eu vi vocês duas também. Eu me chamo Rodrigo.

Ele ficou me olhando, e percebi que eu deveria dizer meu nome.

  • Prazer. Eu sou Deborah. Esta é minha irmã Priscila.

Ele ergueu uma sobrancelha. Odeio quem consegue fazer isso.

  • Ah, certo. Agora entendi porque vocês duas são tão parecidas.

A Pri franziu as sobrancelhas.

  • Você acha mesmo? Sempre dizem que pareço mais com meu irmão e a Deb com nossa irmã caçula.

Ele colocou a mão no queixo, como se pensasse no assunto.

  • Bem, não conheço seus irmãos, então não posso dizer nada sobre isso, mas que vocês parecem, parecem.

O papo estava gostoso. Perdi minha timidez inicial e começamos a falar da escola, da palestra chata e da grade de aulas. Para minha sor, hum… Quer dizer, por coincidência, estávamos na mesma sala.

Acho que o papo continuaria por um bom tempo, se não fosse a intromissão do garoto metido a fortão. Ele chegou rodeado de dois garotos magrelos com cara de idiotas. Ele, ao contrário, era forte ao ponto de ser cheinho (aqueles musculosos com barriga, sabe?), e seus olhos tinham um brilho malvado.

  • Oi, oi, gatinhas. E ae, como vão?

Paramos de conversar na hora. Rodrigo abaixou a cabeça e suspirou. Como não respondemos, ele insistiu.

  • Eu sou Bruno, Bruno Mioling, muito prazer. Que tal vocês duas sentarem comigo? Tem umas mesas vazias do outro lado – disse apontando com a cabeça para um grupo de mesas que não estavam ocupadas.

  • Muito obrigada – disse a Pri. – Mas estamos muito bem acompanhadas aqui pelo Rod, então, teremos que declinar.

O tal de Bruno não era dos mais inteligentes, porque o sarcasmo na voz da Pri era inconfundível.

  • Ah, deixa esse paspalho ai e vem comigo gatinha – disse Bruno, segurando no braço da Pri.

  • Larga ela, seu…

E antes que eu pudesse terminar a frase, Rod tinha levantado e dado um tapa no braço do Bruno, libertando a Pri do aperto dele.

  • Hei cara, quem você pensa que é?

Rod ignorou a pergunta dele.

  • Creio que você não tenha entendido minhas amigas. Elas estão bem aqui comigo, e não tem a intenção de acompanhar você e seus… amigos.

Bruno ficou vermelho. Seus amigos deram dois passos para frente, para ficar ao lado dele, que, com certeza, era o chefe daquele trio desengonçado. Quando viu os amigos ao lado, Bruno sorriu perversamente e estufou o peito.

  • Você que não entendeu, neguinho. Se não vazar, vou detonar a sua cara.

Fiquei indignada com o que o Bruno falou. Em pleno século 21, era inacreditável acreditar que ainda existiam racistas no mundo. Infelizmente, eles existiam e um deles estava bem na minha frente.

O Rodrigo, por incrível que pareça, apenas balançou a cabeça.

  • Olha cara, eu entendo. Você está com problemas, não é?

  • Quem tem problemas aqui é você, neguinho.

  • Não, não – disse o Rod, sem se importar. – Estou vendo que você está com fome.

Até eu não entendi o que ele queria dizer com aquela declaração. Bruno parecia tão confuso quanto eu.

  • Como assim? Ele perguntou.

  • Ouvi esse ditado a muito tempo, de um… Conhecido. Ele era grego, aqueles, sabe, que moram na Grécia. Enfim, esse conhecido estava discutindo com um amigo, que lhe fazia cara feia. Nós estávamos do outro lado da rua, e acabamos assistindo. O vizinho olhou para o amigo e disse: “cara feia pra mim é fome”. A julgar pela cara horrível que você tem, véi, faz muuuito tempo que você não come nada.

Nessa hora não deu pra aguentar. A Pri e eu rimos tanto que até saia lagrimas de nossos olhos. E o pior de tudo era que a discussão dos dois tinha chamado a atenção da maior galera. Eu nem tinha me tocado, mas pelo tanto de gente que ria, pelo menos um terço dos alunos tinham ouvido o Rodrigo tirar o Bruno.

O Bruno ficou tão nervoso que armou um soco e voou na direção do Rodrigo, muito mais rápido do que eu acharia normal. Porém, mais rápida ainda foi a reação do nosso novo amigo. Sem que eu pudesse entender o que aconteceu, o Bruno estava com a mão presa pelo Rodrigo, que lhe aplicava uma chave de braço, colocando o valentão de joelhos.

Todos ficaram quietos. Só o Bruno choramingando era ouvido.

  • Cara, me larga.

  • Só depois de você pedir desculpas por tudo o que disse para as garotas.

  • Rod, não precisa… Começou a Pri, mas o Rodrigo estava convicto.

  • Peça desculpas para as garotas.

  • Desculpa – disse o Bruno depois de um tempo. – Desculpa por tudo que eu disse, pelos xingos e pela falta de educação.

O Rod então se abaixou e sussurrou algo que só o Bruno ouviu. Seja lá o que for, fez o cara arregalar os olhos e balançar a cabeça várias vezes. Quando o Rodrigo o largou, ele saiu correndo com os amigos atrás dele.

Como se nada tivesse acontecido, o Rod voltou a sentar e continuou tomando o seu suco de maracujá. Quando terminou de tomar o suco e teve certeza de que os curiosos tinham se mandado, ele falou conosco.

  • Me desculpem por isso. Mas não podia deixar aquele cara falar com vocês daquela maneira.

  • Eu agradeço isso sim – disse a Pri. – Olha Rod, se você não estivesse aqui, aquele cara não daria sossego. Muito obrigada mesmo.

Então ele olhou para mim. Eu sei que devia agradecer, mas o que saiu da minha boca foi:

  • O que você sussurrou no ouvido dele?

Ele se surpreendeu com a pergunta, e pelo canto do olho via a Pri, minha amada e discreta irmã Pri, dar um tapa na própria cara, erguer as mãos para o céu e dizer por que eu, Senhor?

Não preciso dizer que caímos na gargalhada. E bem nessa hora o sinal do fim do intervalo tocou.

  • Bem – ele disse –, agora temos aula de Matemática.

  • Oh, céus… Sério? Perguntei.

  • Sim – ele disse. – Vamos ver que maravilhosas sentenças nos aguardam.

Eu ri.

  • Mostre o caminho então, Rodrigo.

Ele me olhou divertido.

  • Me chame de Rod, pode ser?

  • Está certo – eu disse sorrindo. – Neste caso, me chame de Deb.

  • Certo Deb.

  • Só pra constar, podem me chamar de Pri, e eu chamarei vocês de Deb e Rod.

Eu olhei para Pri, me divertindo com suas esquisitices.

  • Eu já chamo você de Pri.

  • E você já está me chamando de Rod à pelo menos um intervalo.

Ela deu de ombros, com os olhos arregalados.

  • Eu sei, mas só para não ficar de fora da conversa.

E falando um monte de asneiras como essas, minha irmã e eu fomos para a sala de aula, com nosso novo amigo.

 

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